
Respira.
Imagina.
Encanta.
Agô minhas mais velhas e agô às mais novas
Esse rito-rezo iniciático abre as portas da imaginação e do sonho.
A disputa que as culturas afrodiaspóricas assumem – e que vencem enquanto negras vivas estivermos, é uma guerrilha de vida e morte. Desvelada aqui, não apenas na conduta da sobrevivência ordinária e material, mas do pulsar dos sonhos, das epifanias, das cores e da beleza da arte. O imaginário preto também está em disputa e falar de projetos de aquilombamentos cênicos que criam o que chamo de Zona de Respiro é assumir um lugar na trincheira.
Este o lugar deste rito: uma pesquisa de imaginação selvagem sobre pele.
Pele. Órgão. Sensibilidade e vida.
As peles negras em cena, somam e comunicam metros incontáveis de sensações, memórias, percepções e lutas. É sobre os sentires da pele e sobre sua incomensurável capacidade de regeneração, imaginação e sonho – que ao longo deste trabalho é discutido sob os termos de utopias e reelaboração da experiência afrodiaspórica.
Respirando bem fundo imaginemos uma cena de encantamento: Era uma vez uma cicatriz imensa no mundo, uma ferida mal curada. E dessa rachadura jorram litros de sangue. A terra doendo ruge, barulha e este som se repetindo faz o sangue vibrar. Este vibrato se espalha por toda a terra, é ritmo, é o tambor primeiro, coração do mundo.
O sangue e tudo o que há aprendem a mover-se, e agora tudo baila carinha a terra, que respira aliviada. Da respiração do planeta, de dentro da ferida gigante (e histórica) uma semente inspirada grita. A pequenina foi rompida, rasgada, a vibração transformou a semente em broto... Seu grito foi o impulso irrefreável da transmutação. Vida liberta, insurgente e indomável, brotando na pele da terra.
A vibração, dança desgovernada segue e cria tudo o que há por séculos e séculos...
Agora, voltando a atenção para o ar-vida que entra e sai de dentro de nós imaginemos que tudo isso se repete. De inúmeras formas. A vida é uma luta incansável por existir, vibrar e dançar no mundo. Esse é o rito encantado, repetido todos em todos os palcos, ruas, terreiros e quintais que recebem um corpo negro que vibra em cena. Essa imagem-broto é muito cara à perspectiva que adoto para pensar o mundo, principalmente esse mundo de artesanias trançadas entre artes cênicas, educação e artivismos.
A cena preta é vibração selvagem e secular de vida, amor e cura
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