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02

respiração

caderno
utopias d'água

Jovem com cartaz no Ato do Movimento Antirracista Sorocabano

O luto dói!

Afirmação indigesta que inicia a reflexão sobre esse contexto bárbaro. Nesta etapa de desenvolvimento o olhar investigativo para o campo seria efetivado. A pesquisa se voltaria de fato para a observação das peças, espetáculos e performances para construir as análises colocando os discursos em rede e produzindo reflexões de aprofundamento. Isso não foi possível.

A epidemia da doença Covid-19 causada pelo novo corona vírus se espalhou em escala global, a Organização Mundial da Saúde decretou a pandemia no ano de 2020 uma série de medidas para conter o avanço do vírus de Covid-19 em todo o mundo. Os sintomas incluem febre, tosse, perda de paladar, dores no corpo e falta de ar. O que já era muito complexo torna-se um caos total: a cada dia fica mais evidente que o vírus é mais letal na população negra e pobre. A exposição ao se deslocar em transporte coletivo para o trabalho, a falta de máscaras e álcool gel para higienizar as mãos tornam as pessoas periféricas mais vulneráveis. Sabemos que são as pessoas empobrecidas, mulheres, indígenas e negras as mais atingidas pela pandemia, e, com dor sentimos os agravantes pelo descaso se desvelando como política de morte.

Pânico entre os mais humildes: escolher entre morrer de fome tentando se resguardar em casa, ou enfrentar o contexto saindo para trabalhar se arriscando a morrer pelo corona vírus. 

Eu danço pela casa sozinha . Não sei se vou enlouquecer por estar sozinha ou se vou enlouquecer pelo medo que paira quando encontro alguém. A qualquer sinal de algum dos sintomas uma avalanche de sensações corporais, crise de ansiedade e choro compulsivo pode acontecer. A qualquer hora, em qualquer momento, nunca se sabe quando o vírus pode atacar. Danço esses medos. Coreografo essas tristezas. Fiz uma partitura gestual: proteger o rosto, se cobrindo com a máscara, lavar as mãos, lavar os objetos todos, retirar os calçados e tomar banho imediatamente, proteger a imunidade, proteger a cabeça. Cuidar ori.
 

Textos bagunçados. Arquivos soltos. Danças soltas. Palavras soltas. Tentativas fracassadas de produzir. 
 

Mapeamento da pesquisa suspenso, o período de viver boquiaberta, pasma, em choque e em constantes situações onde o corpo é atravessado pelas sensações do luto. Luto pelas pessoas próximas, luto pelos mais de 600.000 mortos no Brasil, luto pela impossibilidade de viver o campo da pesquisa, restava apenas chorar e seguir as medidas de segurança: usar máscara e álcool gel, fazer isolamento social... No entanto, nem sempre chorar é possível, inclusive por conta de tanta lágrima derramada, por vezes as torneiras se esgotam, e o corpo desértico adoece. 
 

Nas lidas das rotas cotidianas (para algumas traçadas apenas dentro de casa, para outras no risco de contágio nas ruas para exercer as demandas de ir ao mercado e a farmácia, etc.), a normose tenta abraçar todos os corpos e fazer parecer que o vivido no Brasil e o mundo nos últimos dois anos é normal. 

Quem pode viver e quem não pode? 

Quem tem direito ao luto e quem não tem? 

Quem pode respirar e quem não pode?

Encontros virtuais do Mulheres de Utopias em 2020
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