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Cenovivência
Substantiva feminina negra
Palavra recém nascida, Palavra criança;
Palavra criada para designar utopias d’água de artistas negras
(e também para brincar experimentos e teorias)
Palavra ofício
Palavra exercício
Criação experimental das que vem de baixo
Ao pé da letra a vivência na cena
Mistura de cena com experiência de vida
fundamental para a tese
Ideia parida durante as viandanças
Termo chave para aglutinar saberes de diversos artivismos negros
Conceito Filha das escrevivências e de águas afroatlânticas desaguantes nas artes pretas
Palavra corpo que não nasceu para servir cafezinho, nem para limpar e lavar roupa de gente branca. Termo insurgente, fuga que ainda dói, mas há danças de curar.
Cenovivência é Conceito Filha
(Cena e rotas corporais como modo de respiração e vida)
Escrevivência (conceito mãe): escrever a experiência a partir da própria perspectiva. Corporificar na escrita as vivências desde sua condição de mulher e negra. Colocar no papel o que se vive de modo a inaugurar no mundo uma escrita própria, se inaugurar no mundo como sujeita da própria história.
Cenovivência (conceito filha): encenar a experiência negra a partir da própria perspectiva. Corporificar no palco as vivências desde a condição de mulher e negra. Os trânsitos por diversas linguagens, movimentos, setores da sociedade, os deslocamentos pelas margens e pelos centros das cidades, as memórias do corpo formam uma bússola. O caminho apontado é o da expressão pelo movimento, pelo gesto, dança, música, voz-palavra, visualidades. Rotas do corpo como modo de respiração e vida.
InDefinindo Cenovivências
São três os subtextos principais, fundamentos para analisar teatralidades e performatividades negras: Subtexto 1 - A bênça às mais velhas; Subtexto 2 - A bênça às mais novas; Subtexto 3 - Corpo-casa Casa-corpo. Estrada-casa Casa-estrada.
Isso que estou chamando de Cenovivência, é uma ideia filha das escrevivências, termo criado por Conceição Evaristo que é muito caro às mulheres negras brasileiras. Crio a lógica de cenovivências sabendo que elas têm suas raízes no antes. Muito antes de ir a cena, esse corpo situado em encruzilhadas históricas e culturais muito complexas, pensa, produz, prepara, organiza e gerencia uma série de marcas. Sinto que essas marcas, queloides invisíveis, vão se tornando mecanismos. Olhamos para elas antes de pisar em cena. Conversamos com elas. Passam a ser mola propulsora. Impulsionam. Neste ponto da viagem, a minha metodologia de viandança se centra em organizar esses subtextos principais (que parecem independentes do tema discutido na dramaturgia de cada obra), porque são a massa do vivido.
O caldo do cozimento entre as lutas dos movimentos sociais negros, das teorias e discussões das nossas intelectuais e principalmente das marcas do corpo em movimento. Esses subtextos, poderiam ser discutidos também como a expressão do sensível.
Assim (in)defino esse conceito de cenovivências na vivência, observação das obras. É o sabor do contato com esse efervescente caldo artístico, que anima. É um pouco do que o mundo branco das artes chamaria de análise de espetáculo. Com a diferença de que essa expressão, a nossa expressão, impedida e negada em determinados contextos, aqui circula livre. Não é lida, com lentes conceituais canônicas.
As idás das yabás trituraram essas lentes brancas ocidentais hegemônicas. Iabás me ensinaram a ver com olhos de rito. Com os olhos do corpo, ativação de todos os sentidos para receber a cenovivência das minhas irmãs. É a ética quilombola que falamos antes. É a transformação dos espaços em quintais- naves-nuvens.
É dar espaço para Exu, a boca que tudo come. Sem máscaras de flandres, sem dentes quebrados, sem maxilares travados de tensão pelos cortantes olhares racistas... Bocas livres... Exu precisa comer, e come!
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